quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um soneto a Cristo cruxificado













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A Cristo na Cruz
.Baltasar Estaço (*)
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O bem que a tantos bens me convidava,
O qual desmereci, vós merecestes:
Que a vida que por meu amor perdestes
A vida me alcançou que eu desejava
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O mal que a tantos males me obrigava,
O qual não satisfiz, satisfizestes:
Que a morte que por meu amor sofrestes,
Da morte me livrou, que eu receava.
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A vós, Deus amoroso, a vós só amo,
De vós pratico, só, de vós escrevo,
Por vós, a vida dou e a morte quero,
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Em vós, fogo de amor, em vós me inflamo,
Pois que pago por vós o mal que devo
E mereço por vós o bem que espero.

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(*) Uma poesia para rezar. Ou uma oração em forma de poesia... Não importa: o que importa é o conteúdo de agradecimento a Deus pela redenção imerecida, escrito pelo sacerdote português Baltasar Estaço no começo do século XVII. Uma oração de 400 anos, mas atemporal. (Fonte site: "Aleteia em busca da verdade".)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

 

Soneto da separação
Vinicius de Moraes
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De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
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De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
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De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
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Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Motivo
 
Cecília Meireles
 
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Soneto de Ronaldo Cunha Lima

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Uma história em dois tempos
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Ronaldo Cunha Lima(*)
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Cada tempo viveu uma estação:
um inverno de sonhos e quimeras,
o florido das belas primaveras
e o outono com folhas pelo chão.
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E em meio à tempestade, a inundação
do nosso espaço, abrindo-lhes crateras
separando, entre nós, as crenças veras
no amor e temor à solidão.
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Houve fugas de rotas e caminhos,
distâncias nos afetos e carinhos
em confissão final, a mais sincera.
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Nossa história, em dois tempos dividida:
uma metade em sonhos foi vivida
outra metade é, tão somente, espera.
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(*)Ronaldo Cunha Lima (Guarabira - 1936 - João Pessoa 2012)  foi advogado, promotor de Justiça, professor, poeta, vereador e prefeito de Campina Grande, governador da Paraíba (dois mandatos), deputado federal (dois mandatos) e senador da República.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Poema de Judas Isgorogota


Os Pêssegos
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Judas Isgorogota
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Mando-te, amor, uns pêssegos, dourados,
aureolados de cetíneos fios;
tenros como os teus seios, perfumados,
frágeis, sedosos, tépidos, macios ...
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Lembra teu colo, de veludo-rosa,
a polpa suave, sedutora, amena,
de indizível doçura, capitosa,
como o teu lábio de mulher morena...
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Qual se de néctar fabricada fosse,
tem o sabor divino da ambrosia;
doce como os teus olhos, juraria
que só o sorriso teu é assim tão doce...
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Toma-os nos braços teus, com tais cuidados
e de maneira tal todos unindo,
que, maduros que estão, de sazonados
não se vão machucando e diluindo...
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Mas, abraçando-os, com efetivo encanto,
faze que os seios túrgidos, rosados,
juntos, agora, aos pêssegos dourados,
não se misturem nem se igualem tanto...
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Não sorrias, amor, de meus receios...
Evitarás, assim, que estas amenas
visões, tão lindas — pêssegos e seios —
não me pareçam pêssegos, apenas...
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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Um soneto de Carlos Pena Filho

Carlos Pena Filho, jornalista e poeta
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Testamento do homem sensato
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Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: "Ele era assim..."
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
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Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.
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Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,
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deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
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 (Carlos Souto Pena Filho nasceu em Recife (PE) em 17 de maio de 1929, onde faleceu, vítima de atropelamento, no dia 11 de julho de 1960).

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Poema de PAULO CALDAS

 
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MERGULHOS NA NOITE


Tenho nas costas a lua,
Rabisco, rascunho, papel,
Sou um arco-íris noturno
Singrando escuros, vidraças, paste
l.

Reflito-a dependurada
Na aba do meu chapéu,
Menina, mulher, aquarela,
Entretela, entre azuis, lumaréu.


Imprimo pousos entrelinhas,
Bordo luzes a cinzel,
Urdo ouro, nanquim, serenata.
Luar de sede, de pedra, de prata.


Sou uma lua de lata,
Troféu trazido em tecido,
Nas dobras de um vestido,
Aconchego de pano puído...
Usada blusa sem cor
Despojo de roupa rota
Onde desfio debruns
E moradas de sóis.


Mergulho noites e aldeias,
Perscruto cavernas, candeias,
Medito em remansos de estrelas,
Embosco a lua e trago-a inteira,
Levitando em minhas mãos,
Luminosa bolha de sabão,
Impressa, tecida num véu,
A cinzel de serenata,
A luzes de ouro e prata...


Nanquim na vidraça do céu,
Sou a lua, rabisco, papel
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PAULO CALDAS (Maceió/AL) é artista plástico e poeta.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

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Mariana Teles


Querer eterno
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Mariana Teles
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No silêncio de tudo, quando eu calo
É somente em teu canto a minha voz
Na ausência que sinto, eu não me abalo
Porque Deus nos reserva um dia após...
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Do amor que eu tenho pra o amor que falo,
A distância é sempre infiel, algoz,
E em cada riso deixa um intervalo
Pra saudade de dois criar um nós
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Com você os planos são de um sempre terno,
E aquela certeza de um querer eterno
Se faz todo dia mais viva e mais forte.
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Meus sonhos se perdem na busca dos seus
E nós nos achamos num amor que Deus,
Fez com tanta vida que matou a morte.
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Mariana Teles, natural de Tuparetama (PE), poeta, declamadora, é filha do grande poeta Valdir Teles.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sonetos de Jorge de Lima

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Pelo silêncio
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Pelo silêncio que a envolveu, por essa
aparente distância inatingida,
pela disposição de seus cabelos
arremessados sobre a noite escura;
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pela imobilidade que começa
a afastá-la talvez da humana vida
provocando-nos o hábito de vê-la
entre estrelas do espaço e da loucura;
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pelos pequenos astros e satélites
formando nos cabelos um diadema
a iluminar o seu formoso manto,
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vós que julgais extinta Mira-Celi
observai neste mapa o vivo poema
que é a vida oculta dessa eterna infanta.

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Soneto da Saudade
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Quem não canta?Quem?Quem não canta e sente?
-Chama que já passou mas que assim mesmo é chama…
A saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e fascina e chama…
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Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe… uns sorrisos de dama…
…Um segredo de amor que se desfaz e mente…
Quem não teve? Quem? Quem não os teve e os ama?
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Olhos postos ao léu, altivagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?
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Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
-Faze que uma saudade a ti seja presente!
-Faze que tua morte uma saudade seja!
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Homenagem à ARLENE MIRANDA



(Arlene Miranda, retratada por Dydha Lyra)


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Retrato desbotado
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Arlene Miranda
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Abrindo, hoje,
o baú das minhas recordações.
Encontrei o teu retrato,
Já roto, desbotado,
Corroído por traças endoidecidas
Que tudo destroem com o passar do tempo,
Tornando as imagens da vida desvanecidas
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Teu semblante ainda é o mesmo
Mas o teu olhar não parece frio
Como Atualmente,
Ao experimentares os desencantos
Dos sonho perdidos,
Quando sentes o peso dos anos já vencidos...
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Olhando, agora, o teu retrato,
Vêm-me à memória
Ternas lembranças de um amor ardente
Que floriu a minha mocidade;
Um passado, no qual vi caminharem
As minhas ternuras, esperanças e alegrias.
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E nesse emaranhado de recordações
Volta a desfilar a tua presença
Viva, feliz, cheia de emoções.
Presença que, hoje, é apenas uma sombra,
Sombra que assunta um coração que chora
E que busca o passado no fundo da memória.
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                                          (Recife, dezembro de 1959)
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Arlene Miranda, jornalista, escritora e poeta, falecida em 27.12.2013, era membro da Academia Maceioense de Letras e do Movimento da Palavra. Foi a primeira jornalista profissional do Estado de Alagoas.

Poema de Cavalcanti Barros

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O Mar
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Não permitas
a tua amada
oferendar
desejos ao mar.
Eles não voltam
verde-vestidos,
se não, o que seria do mar?
Não deixes
teu poeta
fecundar o mar.
Seu corpo volta,
mas a alma fica
a cortejar o mar.
Se não, o que seria do mar?
As almas dos poetas,
como as dos pescadores,
vestem
verde-esperança.
Há blocos 
de almas verdes
no alto-mar.
Vagando, vagando
sem sul e sem norte,
sem ser, sem não-ser,
no conter do mar.
Se não, o que seria do mar?
 .
Copyright © 1988 by Cavalcanti Barros
All rights reserved.

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José Cavalcanti Barros é membro do MOVIMENTO DA PALAVRA