segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sonetos de Christiano Fernandes

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Cinco sonetos para um passarinho
                       
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Sem desvelo nenhum pelo ecológico
- antes pensando tudo por amor -
o pássaro deixou-se, por ilógico,
aprisionar-se todo, até a cor
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dourada da plumagem, mais o verde
dos seus olhos e mais o que ele era:
pássaro alado de desejo e sede.
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Depois, acomodado na gaiola,
imaginou-se cravo e viola
e pôs-se a fiar o tempo em seus teares...
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Até que em certa tarde morna viu-se
pairando além, e livre pressentiu-se
reofertando à festa dos pomares.
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II
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O mar, o mar imenso era um brinquedo
e o céu distante era um azul deserto.
Seus olhos eram como longos dedos
trazendo as longitudes para perto
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Das ânsias de suas asas que, em segredo,
o vôo liberava para um certo
espaço já perdido e desde cedo
roubado de seus sonhos mal despertos.
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Cativo, agora, o pássaro modula
uma canção plangente que se ondula
nas harpas da manhã e, então, se evola
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em árias e sonatas e se perde
pelo deserto azul e pelo verde
mar, alheios ao pássaro e à gaiola.
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III
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Posto que do mar não seja
e seja ave de pomar
pelo mar sempre ela adeja
ela é louca pelo mar.
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Pelas naves da manhã
ela faz sua  viagem
enquanto a ardente romã
do sol lhe doura a plumagem.
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Viaja mesmo na areia...
E quando faz mão cheia,
há ventos fortes, marola,
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ela que é ave campestre
com destino terrestre
sonha com o mar na gaiola.
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IV
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De dourado fez-se azul
naquela manhã, o pássaro.
Ou foram ventos do sul
que de repente perpassaram
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pelas paisagens que habita,
ou foi uma certa aragem
que em certas horas transita
e muda a cor da plumagem,
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E em frio azul transmudado
pôs azul no seu trinado
e o mundo inteiro azulesce...
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Revestindo a corda dourada
nos clarins da madrugada.
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V
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Sentir meus dedos entre suas penas,
tatear meus olhos pelos seus segredos
é esse o jogo a que me entrego, apenas
o pássaro diviso em seus degredos
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aéreos, no altiplano de concreto,
em cujo frio chão nada germina
além de sombras e seu vulto incerto
que se divisa de uma esquiva esquina.
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Onde no chão os girassóis florescem
nos braços da manhã ele amanhece
adeja leve e nada lhe sofreia
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o vôo dourado em direção do mar.
E redivivo ao sol e se desfaz na areia.
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Christiano Nunes Fernandes, nasceu no Amazonas, no alto rio Negro, em uma das propriedades do seu pai. Faleceu em Maceió(AL), onde morou por muitos anos, formou-se em Direito, constituiu família, prestou concurso e foi nomeado Juiz de Direito.

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